quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Amor Livre e Futebol: psicologia UFES é o time dos sonhos!



No esporte em geral, principalmente no futebol, existem os “times dos sonhos”. São aquelas equipes que possuem excelentes jogadores que vão desde o goleiro até o último atacante. A qualidade técnica é acima do normal, a bola rola fácil, sem crise alguma. Temos uma defesa, que sempre dentro dos limites que a arbitragem permite, defende bem nosso gol e sempre nos coloca em contra-ataques fulminantes. No meio-campo existem ótimos articuladores que ligam defesa e ataque. É mais ou menos ali que os lances principais serão definidos e executados. E, finalmente, um ataque impecável com jogadores do mais alto gabarito. 

Bom, e o que a história nos mostra? Por algum motivo obscuro, quase todos esses tipos de equipe não vingam. Simples assim: não dão certo. Como se o somatório de tanta coisa boa e de tantas “estrelas” fosse simplesmente a causa das inúmeras derrotas. Em cada jogada, a torcida ensandecida sempre quer mais. Espetáculo: A experiência nos mostra que individualidades e individualismos, somados, não se transformam em “equipe” necessariamente. E na medida em que a “moral” de cada jogador vai aumentando, mais ele quer decidir tudo sozinho. Assim, o atacante, mais um membro do time, se transformará em algum tipo de messias redentor de todos os nossos pecados. O goleiro será um novo tipo de santo católico capaz de proteger nossa retaguarda de qualquer maneira (e ai dele se não conseguir!). E o meio de campo, o “coração” do time, os articuladores, se reduzirão a orgulho e prepotência. E assim, o tão aclamado time dos sonhos começa dar vazão às suas verdadeiras faces. O outro lado da lua começa a aparecer... 

Culpa. De quem seria então? Porque está tudo ali: grandes nomes, grandes “feitos”, uma grande torcida! De modo que do ponto de vista técnico e teórico tal equipe deveria dar muito mais trabalho do que realmente dá. No entanto, o que começamos a ver é o surgimento de inúmeras intrigas entre todo mundo que, de algum modo, faz parte do time: jogadores, banco de reservas, dirigentes, técnicos, auxiliares, preparadores físicos, torcida e mídia. E não existe autocrítica aqui não hein: a fórmula geral é “o inferno sempre será os outros”. E como esse caminho é o mais fácil de percorrer, todos vão seguindo-os com um belo sorriso na cara: alguns mudam de time, outros abandonam o jogo, outros mais cagões permanecem beijando os pés de seus dirigentes, sem dizer daqueles que simplesmente fingem que nada acontece. E assim, cada ator desse grande teatro, cada peçinha desse grande lego, vai cedo ou mais tarde acabar notando o óbvio: “realmente estávamos em um time dos sonhos”. 




-Jogo duro, jogo trincado, jogo difícil de vencer. Tantos lances e não saímos do zero a zero. Fala Casagrande! 


-Então Galvão, parece que ambas as equipes não estão se empenhando em ganhar o jogo de verdade. Na verdade, já passou da hora dos técnicos se lembrarem de que tem jogadores reservas em seu banco. Jogadores de muita boa qualidade inclusive. Realmente é lamentável o que os torcedores estão pagando pra ver...opa, vai lá Galvão! 

-Casagrande, rapidinho. Mas to com o Tino Marcos aqui no ponto querendo falar alguma coisa 

-Alô Galvão, é realmente lamentável. Além de termos que dar cobertura pra essa partida tão, digamos assim, morna, podemos ver que está acontecendo, nesse exato momento, um quebra-quebra GENERALIZADO nas arquibancadas. Absurdo Galvão! 

-Seria briga entre torcidas Tino? Um quebra-quebra descontrolado entre torcidas! é isso que tá acontecendo Tino? As torcidas se revoltam com seus times e começam a brigar entre si! Globo em você, tudo a VER! 

-Então Galvão...é mais ou menos isso! Parece que os torcedores de ambas as equipes se juntaram! Não está havendo briga entre eles não! Todos os torcedores estão, todos juntos, descendo das arquibancadas. A briga deles está sendo contra os policiais do estádio...briga ge-ne-ra-li-za-da Galvão! 

-Galvão, Caraaaaaaaaaai! 

-Fala Casagrande! Quer dizer, olha a boca Casagrande! 

-Todos os torcedores estão invadindo o campo nesse exato momento, meu deus! O jogo vai ser interrompido Galvão! 

-E os torcedores invadem completamente o campo. 

Alguns segundos depois... 

-Bem amigos da Rede Globo! Muito boa noooooite! 













sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Reforma ou Fim de Roma? Parte II




Todos os tipos de aventureiros. Todos os tipos de piratas. Todos os tipos de prostitutas. Todos os tipos de pobres cidadãos de bem (!). E claro, todos os tipos de gladiadores: cada um de seu jeito, cada um com o poder que os deuses lhes conferiram, todos tentaram “jogar o jogo” dos romanos. Pagaram seus impostos a duras penas, assistiram o máximo de jogos de gladiadores que puderam, participaram da política romana avidamente e jogaram flores a nobreza sempre que ordenados. Mesmo com a insatisfação geral que só aumentava, não foram poucos os que, assim mesmo, defenderam Roma e sua política (macro, micro, intra ou inter: todo tipo de política!). E “defesa”,literalmente falando, sacaram? Foram às festas dos romanos, cumpriram os rituais e tradições romanos, votaram em seus representantes, aceitaram sem a menor culpa as religiões romanas: quiseram ser como os nobres romanos! E uns até conseguem mesmo: vão se enfiando, vão rastejando, pedindo esmolas, até que em algum dia, um senhor romano de alta patente olha o pobre diabo pelo canto dos olhos e diz: “vou te ajudar”. E esse será mais um dos vários “dominus” que o pobre diabo terá ao longo de sua caminhada rumo aos palácios da república Romana. Lá, onde muitos desejam chegar, mas que pouquíssimos entre pouquíssimos chegam de fato. Tudo isso, caso ele consiga “chegar lá” mesmo, só para ver a mesma coisa que o lendário Spartacus viu nos momentos finais de sua luta contra Varro* (seu melhor amigo)... 

Não faltaram os mais espertinhos que optaram em ir “por dentro” do império, subordinando, recebendo chantagens, se elegendo em falsas campanhas, fazendo alguns trabalhinhos sujos, acreditando, pobres coitados, que a nobreza romana era ingênua o suficiente para não perceber seus movimentos. Desejavam, mais do que ninguém, se banhar com os mais belos vinhos de Roma! Tinham um enorme prazer só de pensar no dia em que poderiam finalmente bater no peito e dizer “agora sim eu faço parte disso”. Até que numa bela manhã ensolarada e com céu azul, no primeiro deslize ou no primeiro aumentar de voz, Roma inteira, num só corpo, como um grande general impiedoso, vira para trás e olha-o com o canto dos olhos novamente. Dessa vez, não para abrir um sorriso acolhedor e oferecer sua mão caridosa, mas para projetar a lamina afiada de sua espada em direção a região logo abaixo de seu queixo! E como um passe de mágica, a palavra “justiça” aparece na cena. Algumas pessoas passam, dão uma olhadinha pelo cantinho do olho e tudo começa outra vez... Porque em Roma é assim mesmo: o que não está atrapalhando faz parte da solução. Tudo pode! Até o dia em que você esbarra no castelo de areia de alguém... E na boa! São muitos. 

Spartacus, por um longo tempo, se vangloriou com o prestígio que os romanos lhe prestavam. Um escravo, um simples subordinado do mais baixo escalão, se tornara agora o “novo campeão de Cápua”. De escravo a Deus em tão pouco tempo: Spartacus agora reinava como o Sol entre as nuvens. No entanto, existia algo de diferente em seu metabolismo. Algo que poucas pessoas em todo império sentiam: ele não queria ser como um romano, não tinha menor intenção quanto a isso! Através das lutas entre gladiadores, ele sonhava em pagar todas as suas dívidas, encontrar sua linda esposa e simplesmente ser feliz. Roma, o ideal vendido para todos os tolos e ingênuos em geral, simplesmente não era algo almejado por Spartacus. Todo o jogo a que ele decidiu se submeter (assassinatos em geral, adultérios, etc) tinha um objetivo simples: recuperar a mulher amada. Não estava em seus planos defender Roma ou se curvar diante da fétida nobreza em plena decadência. Só que uma vez no jogo, queridos leitores, é quase impossível sair. E assim, Spartacus, a lenda de Cápua, também acaba conhecendo o preço de seu idealismo e ingenuidade: esposa assassinada a mando de seu amado “patrão”, submissão eterna, dívida eterna, dívida externa (!), escravidão eterna... “tudo isso e muito mais esperam os tolos nessas terras”. Nem uma verdadeira lenda, nem um autentico Deus, como ele era visto pelos romanos, tinha poder o suficiente para reverter a quadro clínico geral. 

Heróis, deuses, milagres, ascensão! Tudo isso existiu em Roma! 

Heróis de brinquedos, simples fantoches descartáveis feitos (sob medida) para entreter os romanos e a plebe em geral. Deuses para sedar os descontentamentos do povo (doping). Milagres para dar “esperança” e desviar os olhares do povo. E ascensão para provar ao povão que é possível chegar lá, que é só ter “força de vontade e acreditar em si mesmo” 

Spartacus, o pobre diabo, pode vislumbrar a verdadeira face do monstro. Provou de sua espada, mas sobreviveu! Se deu conta a tempo, por obra do destino, do que o “deuses” lhe reservavam. E rejeitou: “que se dane os seus deuses e o que eles dizem sobre mim” 


To be continued... 



* - Cena de um dos últimos episódios da 1° temporada. Vale muito a pena ver!





quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Reforma ou Fim de Roma? Parte I



Spartacus. Fim da primeira temporada. Sangue por toda parte, corpos e mais corpos: corpos de escravos, senhores, prostitutas, juízes, oportunistas, capangas e defensores do império em geral. Corpos esculpidos e reorganizados pela lâmina das espadas ensanguentadas buscando justa vingança. E assim se resume a fala do protagonista frente a todo o sangue recém-jorrado: “fizemos porque foi necessário”. 

Os gladiadores foram seres-humanos que "alegraram" por muitos anos os cidadãos de Roma. Na medida em que as injustiças, hipocrisias e descasos começavam a assolar cada vez mais a população, a alta nobreza que detinha todo o poder à custa da miséria do povo teve a excelente ideia de levar “entretenimento” aos Romanos. Sanar as necessidades e demandas reais de seu povo era pedir demais né? Solução: pão e circo. E assim surgiriam os grandes “espetáculos” dos gladiadores. Eventos semanais que aconteciam em estádios bastante semelhantes aos que estão sendo construídos aqui no Brasil para a copa de 2014... 

Spartacus, mais um entre milhares de gladiadores, também deu sua contribuição para o bom funcionamento do império. Membro de uma tribo aliada ao império, nunca teve intenções de se opor a Roma. Pelo contrário, deu suporte ao império várias e várias vezes. CONTRIBUINTE! Até que por um pequeno desentendimento, ele desafia um Romano de alta patente. Conversa vai, conversa vem, algumas provocações e uma briga entre “autênticos” romanos e trácios (a antiga tribo de Spartacus) é travada. E assim, começa a jornada de Spartacus rumo às plateias sedentas por sangue. E no império é assim mesmo: gladiadores não passam de meros escravos. A diferença é que são escravos mais fortes, que sabem lutar. Homens que aprenderam a lutar como nenhum outro. Que sabem o valor de cada segundo que permanecem vivos e respirando. “os gladiadores não temem a morte, eles fazem amor com ela”. Só que mesmo com toda força que tem, mesmo com todo o valor que dão não só as suas vidas, mas como a de seus iguais (os gladiadores se tratam como irmãos de sangue!) eles OPTAM permanecer como escravos. Sendo assim, mesmo Spartacus jogou o jogo que os romanos queriam. Até o homem que iria liderar uma das maiores insurreições que o império romano já presenciou entrou também dentro do jogo imperialista de Roma. Arrancou o máximo de sangue que pode de seus inimigos. BLOOD! Cabeças cortadas de todas as formas, espadadas épicas, machadadas, e mais e mais cabeças decepadas. Tudo isso sem dizer dos desejos secretos da alta nobreza que os gladiadores sabiam realizar tão bem (!) Mas e  os romanos diante de tudo isso? E a plateia? Sorrisos, felicidade, catarse coletiva, espetáculo! 

Atos revolucionários. Desde o primeiro “não” que o filho dá para sua mãe ou para seu pai até as insurreições armadas mais sangrentas, eles estão aí colocados. Entre tudo e todos, perfurando tudo e todos, como uma metralhadora giratória. Como as espadas dos gladiadores subversivos! 

 “ Dilema revolucionário se aproximando em 5,4,3,2,1...” 

Reforma OU Revolução? 



TO BE CONTINUED...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A raposa nossa de cada dia



Segundo o Wikipédia: 


“As raposas são caçadoras oportunistas e apanham suas presas vivas. A técnica de caça mais comum, aprimorada desde a juventude, é pular sobre a presa para matá-la rapidamente. A dieta da raposa é ampla e variada e inclui, além de pequenos mamíferos (como roedores e coelhos), répteis, anfíbios, insetos, aves, peixes, ovos e frutas silvestres. O excesso de alimento é armazenado pela raposa para consumo posterior, geralmente enterrado no solo, sob folhas ou sob a neve. Por caçarem apenas o suficiente para alimentar um animal, as raposas são predadoras solitárias e não se reúnem em grupos” 

Em muitas culturas espalhadas pelo planeta, acredita-se que cada ser humano possui seu animal referência, ou seja, para cada ser humano na terra existe um animal cujas características comportamentais se assemelham a sua. E tal assunto sempre me chamou a atenção. Será mesmo que eu pareço com algum animal? Será mesmo que existe algum animal que me representa no reino animal? Realmente não há nada que me prove que isso é verdade e nem que é mentira. No entanto, passando o olho nessa frase logo acima sobre o comportamento das raposas tive um estranho e breve sentimento de “peraí, acho que eu já vi isso em algum lugar”. E realmente, se darmos asas à imaginação vamos nos lembrar de várias frases e expressões populares como “fulaninho subiu na árvore que nem um macaco” ou “ciclano tem olhos de águia” Po, todo mundo já chamou alguém ou foi chamado de “gato” né? E por aí vai...

E as raposas? Elas me encantam. Causam-me fascinação, sério mesmo. São seres belos, fofinhos, pequeninos, até engraçados às vezes, mas que escondem uma força poderosa por trás de tanta formosura. Ao invés dos animais de grande porte, que são muitas vezes grosseiros e nada táticos em seu dia-dia, a raposa fica na espreita, observa, faz as análises necessárias para sua sobrevivência e só mostra as suas garras e seus caninos quando tem certeza que sua presa não oferecerá resistência duradoura. E realmente, um animal tão pequeno nesse vasto reino animal não sobreviveria ao lado de leões, rinocerontes, gorilas ou grandes grupos de bovinos. Então a raposa, aquele ser aparentemente tão inofensivo e fofinho, opta por ficar nos buracos, em cima de árvores, se alimentando de pequenos seres, esperando o momento certo de atacar. É um exemplo tático perfeito. Ela, enquanto pertencente do reino animal como qualquer outro ser vivo, usa justamente a sua aparente fraqueza como maior arma. E assim consegue sobreviver. Sempre por trás, sempre nos bastidores, em off, assim elas conquistam seus territórios. E o reino animal é assim mesmo: cada um tentando concretizar seu destino da maneira que julga melhor. 

Nós, seres humanos, também encontramos de tudo em nosso cotidiano: águias, leões, tigres, piranhas, chimpanzés, lobos, jacarés e raposas também. Só que diferente do reino animal, o “Reino dos homens” é muito, muito mais perigoso e amedrontador. Devido a nossa intelectualidade e comportamento bastante diversos, não é difícil presenciarmos alianças improváveis, por exemplo, entre raposas e águias por exemplo. No reino dos homens, é totalmente possível uma aliança temporária entre uma raposa-humana e uma águia-humana. Ou, uma raposa-humana com um abutre-humano, talvez um burro-humano com um camaleão-humano ou ainda uma égua-humana com uma raposa-humana... Alianças, jogos diversos, falsas cooperações, co-parasitismo, política! E a partir desses tipos de alianças, as possibilidades de sobrevivência aumentam vertiginosamente. O grande problema, e aqui reside a ironia de tal reino, é que as possibilidades de Fracasso também aumentam CONSIDERAVELMENTE. Sendo assim, muitos homens-animais sucumbem em suas trajetórias por acreditarem tão ingenuamente em tais alianças. Não conseguem perceber a política-animal em que se meteram e se afundam cada vez mais em jogos e falsos jogos. E apresentando tal incapacidade para analisar o real, acreditam cada vez MENOS na existência da política-animal, na política das alianças temporárias... Porque um dos maiores efeitos colaterais de tal política é justamente fazer acreditar que ela não existe! E perder a fé em tal política é o mesmo de dizer: “ei caçador, hoje é o seu dia!” E assim, finalmente, o homem-animal acaba negando completamente seu lado animal e se torna, segundo minha guia espiritual chamada Estamira, o famoso “esperto a contrário” ! 

É um jogo perigosíssimo onde o menor dos descuidos pode levá-lo ou levá-la, não à simples morte como no reino animal, mas à INFELICIDADE. Coisa que para muitos é pior do que perder a própria vida. O problema é que muitos homens-animais não conseguem perceber essa diferença entre os reinos. Acreditam, ou pelo menos querem acreditar, que só precisam sobreviver e tudo estará bem. Infelizmente é assim e não há nada o que possa se fazer a esse respeito, a não ser esperar... 

Essa é uma parte real do reino dos homens e se você, animalzinho que está lendo isso aqui, está disposto a sobre-viver nele, saiba das coisas que talvez você encontre em sua caminhada. E é preciso ter muito mais FORÇA para lidar com tudo isso e ainda ser feliz. 

Diante de tudo isso é preciso uma última afirmação: as formigas, os ratos, as baratas e abelhas apostam no COLETIVO, os leões e leoas caçam em bandos, certas espécies de pássaros são monogâmicos e muitos animais preferem sobreviver na solidão. Tudo no seu devido lugar e que assim seja! 



Anidalmon Morais Siqueira Filho - http://molotovaluzdevelas.blogspot.com.br








quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Carta aos Cidadãos de Bem

Maria Ortiz, Vitória, 9 de agosto de 2012. Quinta-Feira.



Ser normal na sociedade não está sendo bom. Estamos afirmando isso. Quem aí tá feliz com esse modelo? Galera, vamos ser sinceros: TÁ LEGAL? As coisas estão funcionando, pautadas no cálculo preciso tanto das ciências que temos hoje, quanto da matemática e da filosofia que norteiam nossos dias, nossos remédios, nossos horários de trabalho, o uso dos nossos cofres públicos, a prevenção das nossas doenças sexualmente transmissíveis? Essas ideias, que norteiam tanto a nossa vida quanto as leis que TOPAMOS cumprir, estão fazendo da vida o que de melhor a vida pode ser? A vida pode ser mais do que isso aí, isso que a obediência à norma pode oferecer? O que a vida pode oferecer? A vida pode oferecer mais do que isso? É muito fácil se perder nesse labirinto de perguntas, não é? Então vamos ser mais pragmáticos agora, e afirmar pra enfileirar as ideias e sair do labirinto: nós achamos que ser normal na sociedade não está sendo bom. Não está funcionando.


Caro cidadão de bem, preste atenção: os “loucos”, espalhados pelas cidades, ajuntados nos hospícios, não cansam de denunciar: “Ei normais! Onde está essa felicidade?” A maior ironia é justamente que os padrões, as normas e os estatutos de “boa convivência” provam cada vez mais (e de maneira mais empírica possível, ressaltamos!) que não estão cumprindo o que se propõem a cumprir, que não estão oferecendo a felicidade, ordem ou segurança que prometem, ou seja, que não estão FUNCIONANDO. Parece óbvio. E sinceramente achamos que é mesmo: você constrói uma casa, passa um tempo considerável construindo essa casa, anos e mais ano de muito suor para levantar aquela edificação, até que um dia você tem um insight, revelação ou sentimento que coloca tudo em questão, e te faz acreditar (ou seria “perceber”?) que tudo deve ser repensado e reavaliado. Manter a edificação do mesmo modo, mesmo sabendo das inúmeras falhas, ou tentar outra coisa? É simples. E não tem muito que pensar sobre.

Por exemplo, você já reparou como se dá a transição do não normal para o normal na atualidade? É absolutamente normal existirem mendigos nas ruas. O consenso da maioria é que a pobreza é algo que está aí colocado e ponto. É normal. Ser humano! O que isso tem a ver com o mendigo na rua do centro de vitória? Que bobagem! Não tem nada a ver. O imaginário popular está te lembrando a todo o momento: “fique calmo cidadão de bem. Existem outros tipos de seres nas cidades. Você deve coexistir com eles”. Eis aí uma das mil faces da “normalidade”. E convenhamos, caro cidadão de bem: no final das contas, nem ser humano ele é. Ele é um mendigo e só. E pensar assim é normal. Todos nós aprendemos na escola que normal é o que está de algum modo dentro da regra. No entanto, nos parece que ao longo da história houve algum movimento sorrateiro que simplesmente sequestrou essa palavra de nosso dicionário. Hein?

Momento denúncia:

Interrompemos nossa programação normal para um informe de alta relevância para você, caro cidadão de bem. Recebemos uma ligação anônima de um número não identificado com a seguinte frase (em tom de ameaça): "Estamos armados e com reféns, temos conosco a palavra 'normal' e todos os seus sinônimos, e cobraremos caro pelo resgate. Graças a vocês, nunca um sequestro foi tão fácil e se quiserem suas palavrinhas de volta, fiquem atentos ao celular que ligaremos em breve para acertar o valor. Só o a antropofagia salva"

Hoje em dia, caro cidadão de bem, parece que “normal” é justamente aquilo que não funciona ou funciona de maneira defeituosa. O que precisa ser consertado ou substituído, é justamente o que está aí colocado, demarcado como bom e taxado de normal. Como se “normal” fosse um esconderijo, um "debaixo do tapete", para colocar tudo o que há de errado funcionando no sistema. Mais ou menos assim: algo não vai bem, existe algum “curto” no sistema. Solução: dê a esse problema a roupagem de “normal” e tudo estará resolvido. Parece até sacanagem nossa, mas essa é a fórmula mesmo. Basta aplicar. Lembra da fórmula de báskara, cidadão de bem? Então...

Exemplo: o que são os remédios das farmácias? De uma maneira geral, o que são eles? Dorgas Manolo! E não tem chororô aqui não. São drogas, e nós fazemos uso delas. Ponto. O que é a cocaína? O que causa mais espanto? Um usuário de ritalina ou um usuário (safado vagabundo marginal) de cocaína? É óbvio! O cheirador, né! Por quê? Só lembrar a fórmula.

Vamos abrir amanhã uma boca de fumo dentro da prefeitura de Vitória!

Fique calmo prezado cidadão, só foi uma brincadeira. Mas essa frase causa espanto não é? Quanta babozera! Cambada de vababundo! Aposto que muitos cidadãos de bem que estão lendo essa carta pensaram isso, e nem precisam se sentir envergonhados por isso não, é normal pensar assim! Desse modo, experimentem agora trocar a palavra “boca de fumo” por “drogaria” ou “farmácia”. Olha! Agora sim! Aí pode. E por que isso pode? Basta lembrar a fórmula. Tenta então substituir por "cyber café". A droguinha da cafeína e a droguinha do facebook, mas tá valendo, lembra da fórmula?

Cidadão de bem, agora indo direto ao ponto e sem muita conversinha, pensa: qual é a função de uma escola? Pensou? Agora se pergunta: “tá cumprindo essa função”? Qual é a função de uma religião? Agora se pergunta: “tá cumprindo a função”? Qual é a função do ESTADO? E por aí vai... ei!, é uma lógica simples e empírica. 

Nota de rodapé: Essa fórmula do tapete não é um defeito no metabolismo do sistema, e sim o seus sistema imunológico

Desculpe a franqueza, caro cidadão de bem, mas vamos um pouco mais a fundo: pensa nos valores que foram ensinados a vocês desde criançinha. Lembra lá da sua mãe te ensinando coisas, seu pai te dando bronca, a tia da escola te botando de castigo, sua tia te dando esporro por fazer “arte”, vai lembrando... Adolescência, a primeira transa, a formatura do escola: valores! você aprendeu, parabéns! E se você aprendeu mesmo, você provavelmente entendeu qual é a FUNÇÃO deles certo? Tá de boa? De novo então: eles estão funcionando? Então propomos um teste simples e EMPÍRICO: vai lá fora na rua e simplesmente observe as pessoas por 10 minutos. Só isso. Foi? Então, tá tudo funcionando de boa?

Caro Cidadão de bem, o que é afinal de contas ser normal? Sinceramente? Não damos a mínima para isso. Nós, que gostamos tanto de você, só queremos enfatizar isso: o que você aprendeu como “normal” é realmente normal? Se sim, pergunte-se: sou feliz com o que aprendi? Um abraço forte.

Esperamos que essa carta chegue a você.

Anidalmon Morais Siqueira Filho
José Anezio Fernandes do Vale