quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O silencio dos inocentes






“Uma cidade que um dia já foi bela e que hoje padece em total silêncio. Seu povo dançava nas ruas, se embebedavam pra lá e para cá. Porém, hoje todos os sons parecem ter ido embora. Nem rádios, nem carros tunados, muitos menos artistas tocando música ao vivo nos bares.  O som foi sequestrado! E com ele a música! No máximo, o que temos hoje, são alguns gatos pingados ruivando pelas ruas solitárias buscando qualquer tipo de diversão “


Se daqui há alguns anos, algum roteirista quiser bolar uma histórinha sobre a cidade de vitória, temo que essa seria uma boa introdução para seu roteiro. E nem precisa refletir muito, basta participar minimamente da cena cultural capixaba hoje. E quando digo “cena cultural” não estou só me referindo aos grandes eventos formais bancados pelo governo (que eu não sou contra a priori, afinal de contas é dinheiro nosso ali uai! Que ocupemos todos os espaços!), mas qualquer manifestação cultural que seja feita por pessoas, independente do lugar, do tamanho ou da proposta. Hoje, com as novas leis que regulamentam o nível de decibéis, muitos e muitos bares estão deixando de promover CULTURA. O argumento básico é o incomodo que a altura do som causa aos moradores que ficam aos arredores desses lugares. Os bares hoje, por exemplo, que não tem o isolamento acústico exigido, estão proibidos de ter artistas divulgando seus trampos (que para quem não sabe ou não acredita: sim, pessoas VIVEM disso). Acontece que, a exigência da lei está muito além do que a maioria desses bares pode pagar. E isso é visual! Basta dar um role pelos bares de vitória hoje. O que mais se vê é ou o bar vazio (música é a alma de qualquer bar, fato) ou nego simplesmente burlando a lei do silencio. Tendo dito isso, já podemos falar no rasgado.




Qual a função de tudo isso? Nesse momento o cidadão de bem enche a boca para falar: “porra dalmon, os caras estão trazendo mais paz aos moradores de vitória, dá um crédito mano” Bom, eu não duvido das boas intenções de nossos governantes (tudo bem né, duvido um pouquinho só o/) mas cabe realmente nos perguntarmos o que está por trás de tudo isso. Afinal de contas, os donos dos estabelecimentos e os artistas (que não são poucos e que estão sendo profundamente prejudicados com tudo isso) também se incluem nos “moradores de vitória”. E nesse caso parece que não se lembraram deles ou simplesmente passaram por cima mesmo. Porque vamos combinar: quem tá realmente seguindo essa lei? Tirando uma meia dúzia de artistas e donos de estabelecimentos que tem muita bala na agulha, sabe quem tá seguindo? Ninguém. Ponto. Por um motivo muito simples: é praticamente impossível atender às demandas exigidas. 

Regulamentar, com leis mais severas, os níveis de decibéis gerados em diversos tipos  de situações (que sempre representação algum tipo de exercício da manifestação cultura – subversivo ou mantenedor da ordem) para a promoção de cultura na cidade? Quanta gentileza! Só que com uma lei completamente inflexível e praticamente inalcançável? Meio complicado né.

Paralelamente, o nossos governantes, tão preocupados com a poluição sonora de seus contribuintes, estão investido pesado na mega obra de ampliação da Avenida Fernando Ferrari.  Fora uma série de questões absurdas que essa obra vem trazendo (a sínica e CRUEL falta de uma ciclovia, por exemplo), a pergunta que eu me faço é: e o nível de decibéis que o transito gera? Alguém aí já pensou no nível de poluição sonora que o tráfico de carros gera e vai gerar cada vez mais? E o direito ao descanso dos cidadãos?  Isso então pode né? Ao mesmo tempo em que se implanta, de maneira grosseira e tosca, que beira o desumano, uma política de redução de “ruídos” na cidade, tendo como principal alvo os bares e carros de som (elegendo-os como os grandes vilões que atentam contra a paz dos moradores!), o mesmo governo forja uma obra de ampliação considerável de uma das avenidas centrais do estado para o “bom funcionamento do transito” na cidade de vitória.

Primeiro que é desnecessário dizer que essa obra não vai ajudar em absolutamente nada na diminuição do tráfico. Ponto. Faça mais pistas, crie mais vias, faça mais viadutos. Sabe o que fatalmente acontecerá? Mais carros. Basta ver a quantidade de automóveis que são vendidos cada vez mais. Sem dizer do investimento PESADO em propaganda que tem sido feito para compramos cada vez mais automóveis. E não tem como fugir disso. Segundo, alguém aí já imaginou como ficará o nível de decibéis depois que essa obra estiver concluída? E os moradores que moram nos arredores? E se pararmos pra pensar, a imensa poluição sonora que essa obra vai gerar vai afetar todos. Porque o contingente massivo de carros que aumentará não vai passar só ali. É mais barulho vindo aí. Muito mais! Poluição sonora que será provavelmente maior que qualquer carro de som. Maior que o som de qualquer celular que um funkeiro possa levar para dentro de um ônibus. Maior do que qualquer música ao vivo na rua da Lama (que sempre bomba mesmo nos finais de semana, ao contrário do transito que será todos os dias). 

Tipo assim:

-A obra não vai solucionar o problema do congestionamento, tendo em vista que o número de carros vai aumentar VERTIGINOSAMENTE. Deixo o registro aqui.

-Artistas, bares e a liberdade de expressão como um todo, profundamente agredidos.  

-Cada vez mais concessionárias MULTINACIONAIS de carros se instalando em terras capixabas (com todo apoio e subsídio de nosso governantes)

-Investimento pesado em propaganda: compre carros, olha quanta praticidade, compre carros, carros, compre, compre, compre!
Qual foi o REAL objetivo dessa lei?  NA BOA.

domingo, 9 de setembro de 2012

A cabeça é fria e o sangue é de barata!







Em uma sociedade como a nossa, onde cada vez mais são erguidos muros entre tudo e todos, ter uma residência particular é algo de grande valor. Muitos, inclusive, têm isso como seu maior objetivo de vida. E é algo bem compreensível mesmo: se a maneira como nos relacionamos é cada vez mais violenta e mesquinha, é fundamental ter, pelo menos, um bom teto para o pobre diabinho descansar depois de um longo dia de trabalho. Alí, onde ele finalmente poderá ser o que mandaram, desde criancinha, ele ser. Ou talvez ali, onde finalmente poderá ser o que proibiram ele de ser. Lar, doce lar! Mas como nem tudo se resume à instagram e joguinhos no estilo “curta ou compartilha” eis que surge ,no aconchego de nosso lar, pequenos seres de cor marrom avermelhado. E não faz diferença os diferentes níveis de neurose com limpeza que temos: elas virão por cima, por baixo, dando a volta pelos fundos...até voando! E muitos vão se perguntar: “deus, o que eu preciso fazer pra essas pragas não virem aqui mais” E ele responde prontamente com cara de deboche: “pobres coitados! não conseguem ver que elas são apenas emissárias de toda podridão que vocês escondem?” 

Efeito surpresa. Nada deixa uma estrutura neurótica mais abalada do que esse termo! E é justamente essa a principal arma das baratas. Contra todo puritanismo e contra todo higienismo, esses insetos se erguem a partir dos ralos e frestas da casa para assombrar os bons cidadãos de bem. O medo talvez não seja de ser como as baratas, mas de aceitar tudo o que elas representam. Elas veem dos esgotos e dos bueiros. Lá onde toda a sujeira e toda merda é levada e escoada. Sua sinceridade revolucionária consiste justamente em não negar a sujeira e toda podridão que estão inseridas. Podridão, que na prática, se pararmos pra pensar, nem delas são. Só que os humanos, ainda demasiados cristãos (Nietzsche chora!), insistem em continuar achando que só a limpeza de seus toaletes basta! Quando na verdade a podridão e toda a imundice vem de muito mais longe e está muito mais articulada. Uma casa em perfeito estado de limpeza e higienização ainda vai continuar estando interligada, associada, a toda uma rede de bueiros e esgotos imundos. Sim, é sujeira demais pra jogar debaixo do tapete não acham? As baratas, o modo de ser barata, esta aí justamente para nos lembrar disso. Que qualquer processo de mudança, que exija limpeza ou substituição de uma coisa por outra, revolução!,  deve sempre estar articulado com uma limpeza muito maior. Do contrário, vamos continuar ficando no paliativo paranoico de “a minha parte eu to fazendo”, que nada mais é do que uma maneira sínica de continuar jogando tudo pra de baixo dos tapetes domiciliares... ou dos esgotos. 

Então porque, ao invés de nos preocuparmos com as baratinhas que aparecem no banheiro (denovo: não adianta o quanto você lavar, uma hora elas aparecem. sorry!) não vamos lá fora, no mundo real, ver o que está acontecendo em nosso bueiros?


Esse texto é uma resposta ao Blog Artifício Socialista que escreveu o seguinte texto: http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/09/ao-blog-molotov-luz-de-velas-sobre-as.html


Saudações Molotovistas!