domingo, 9 de setembro de 2012

A cabeça é fria e o sangue é de barata!







Em uma sociedade como a nossa, onde cada vez mais são erguidos muros entre tudo e todos, ter uma residência particular é algo de grande valor. Muitos, inclusive, têm isso como seu maior objetivo de vida. E é algo bem compreensível mesmo: se a maneira como nos relacionamos é cada vez mais violenta e mesquinha, é fundamental ter, pelo menos, um bom teto para o pobre diabinho descansar depois de um longo dia de trabalho. Alí, onde ele finalmente poderá ser o que mandaram, desde criancinha, ele ser. Ou talvez ali, onde finalmente poderá ser o que proibiram ele de ser. Lar, doce lar! Mas como nem tudo se resume à instagram e joguinhos no estilo “curta ou compartilha” eis que surge ,no aconchego de nosso lar, pequenos seres de cor marrom avermelhado. E não faz diferença os diferentes níveis de neurose com limpeza que temos: elas virão por cima, por baixo, dando a volta pelos fundos...até voando! E muitos vão se perguntar: “deus, o que eu preciso fazer pra essas pragas não virem aqui mais” E ele responde prontamente com cara de deboche: “pobres coitados! não conseguem ver que elas são apenas emissárias de toda podridão que vocês escondem?” 

Efeito surpresa. Nada deixa uma estrutura neurótica mais abalada do que esse termo! E é justamente essa a principal arma das baratas. Contra todo puritanismo e contra todo higienismo, esses insetos se erguem a partir dos ralos e frestas da casa para assombrar os bons cidadãos de bem. O medo talvez não seja de ser como as baratas, mas de aceitar tudo o que elas representam. Elas veem dos esgotos e dos bueiros. Lá onde toda a sujeira e toda merda é levada e escoada. Sua sinceridade revolucionária consiste justamente em não negar a sujeira e toda podridão que estão inseridas. Podridão, que na prática, se pararmos pra pensar, nem delas são. Só que os humanos, ainda demasiados cristãos (Nietzsche chora!), insistem em continuar achando que só a limpeza de seus toaletes basta! Quando na verdade a podridão e toda a imundice vem de muito mais longe e está muito mais articulada. Uma casa em perfeito estado de limpeza e higienização ainda vai continuar estando interligada, associada, a toda uma rede de bueiros e esgotos imundos. Sim, é sujeira demais pra jogar debaixo do tapete não acham? As baratas, o modo de ser barata, esta aí justamente para nos lembrar disso. Que qualquer processo de mudança, que exija limpeza ou substituição de uma coisa por outra, revolução!,  deve sempre estar articulado com uma limpeza muito maior. Do contrário, vamos continuar ficando no paliativo paranoico de “a minha parte eu to fazendo”, que nada mais é do que uma maneira sínica de continuar jogando tudo pra de baixo dos tapetes domiciliares... ou dos esgotos. 

Então porque, ao invés de nos preocuparmos com as baratinhas que aparecem no banheiro (denovo: não adianta o quanto você lavar, uma hora elas aparecem. sorry!) não vamos lá fora, no mundo real, ver o que está acontecendo em nosso bueiros?


Esse texto é uma resposta ao Blog Artifício Socialista que escreveu o seguinte texto: http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/09/ao-blog-molotov-luz-de-velas-sobre-as.html


Saudações Molotovistas!

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