Nos dias de hoje, fala-se
muito no ideal da não-violência. Termo bonito, quase um indicativo inquestionável
que a pessoa é “do bem”. Você sai de lugares, entra em outros lugares, cansa
desse lugar, vai para outro e eles estão sempre por ali: discursando de maneira
muito bela sobre os benefícios de um mundo sem guerra, sem opressão, sem
injustiças, com pessoas mais compreensíveis, mais tolerantes, pessoas que
finalmente vão saber ouvir as outras, etc. Tudo muito bonito e motivacional.
Sério mesmo pow, quem não desejaria uma vibe assim? Curtir com os amigos sem se
preocupar com nada, vivendo num mundo irado e com pessoas iradas, viver as mais
belas histórias de amor, ter o direito institucional de poder viajar pelo mundo
quantas vezes quiser, etc.
Só que, no cotidiano, observo muitas dessas mesmas
pessoas frustradas pelos cantos. Cabisbaixas (baixa auto-estima?) porque não
estão obtendo, da realidade, o resultado que esperam. Provavelmente frustradas
por pregarem uma paz estéril que simplesmente não surte efeito. E por não
conseguirem encontrar pontos de inserção nos espaços em que habitam (para destilar seu discurso supostamente pacificador),
assumem uma postura obscura de “vejam! com tanta intolerância assim, não há o
que fazer”. Seu pensamento é algo mais ou menos assim: “só é preciso, a partir
de agora, se preocupar com a necessidade de discursarmos e pregarmos para as
pessoas a não-violência” Como se ser contra a violência fosse o elo perdido de
todo processo embrionário de revolução. Será mesmo? E assim, na fala de cada
um, de cada grupo, cada movimento, torna-se imprescindível detectar o maior
número de brechas possíveis onde a bandeira da tolerância possa ser levantada. Para
que cada uma dessas pessoas, grupos, movimentos, sejam conscientizados sobre os
benefícios do pacifismo. Ei! é preciso esclarecer: o ato de não reproduzir o
violência, por si só, não garante ou afirma coisa alguma. Pelo contrário, pode
ser a célula-tronco do conformismo. Ponto. E reduzir o pacifismo à simples
não-violência como um fim em si mesmo: ingenuidade.

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