quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pacifismo e Ingenuidade parte II





Ação, action, δράση, acción, handling, actie, akció, åtgärder



Gosto de pensar à maneira de um tiozão filósofo esloveno chamado Slavoj Kizek: violência não como o ato em si, mas como conjunto de processos subversivos que causam rupturas, promovem brechas. Ora de maneira forçada, ora de maneira  maliciosa. Violência como tudo aquilo que escancara o não-dito, que desmascara as ações desprovidas de afeto. Violência como espíritos malignos que insistem em desestruturar toda e qualquer forma engessada de organização. Eis aí atos violentos! A violência em sua visceralidade! Violência como qualquer ação que viole o status quo. E nesse sentido, quanta falta de violência! E que falta vc faz!

O pacifismo na Índia foi violento? Muito. E bota muito nisso tá. Toda uma lógica mercadológica colonizadora sendo boicotada cabalmente. A recusa em fazer qualquer exigência que venha dos oficiais ingleses. Até que eles se cansem e percebam o quão estúpidos estão sendo. E véi, tem que ter muita muita coragem e disposição para fazer um bagulho desses.

Na Índia, a não-violência foi, antes de tudo, resultado de muita mobilização e ação. Mais do que enunciação de palavras sobre a paz, eles estavam agindo em prol dela. Com o objetivo claro de emancipação, levaram a cabo o que acreditavam. Com muito suor e sangue realizaram uma resistência bastante eficaz. Postura bastante firme e afirmadora. E assim se tornariam no principal símbolo de Pacifismo Mundial. No entanto, parece que esse histórico de LUTA e ENFRENTAMENTO se transformou e vem se transformando em sinônimo de  inércia total. Conformismo barato, ingênuo. Reduto, inclusive, dos reformistas de plantão, vai vendo...

Tudo o que existe de mais afirmativo e potente no processo de independência Indiano parece ter sido apagado em prol de um ideal abstrato de não-violência. Como se os companheiros Indianos tivessem recebido a independência dos céus. Acordaram um belo dia, receberam uma iluminação qualquer a respeito da não-violência e, assim, receberam diretamente das mãos do criador a independência (!!!). Parece uma história bobinha, mas muita gente age em nome do pacifismo seguindo esse raciocínio. É foda, mas é o que eu mais vejo rolando. Ou seja, existem os que lutam, os neuróticos, os “violentos”, e existem os mais evoluídos: seres que aprenderam que violência só gera violência e que, por isso, optam em não fazer absolutamente nada. Seres tão iluminados, tão superiores, que se escondem atrás de seus egos, morrendo de medo do mundo lá fora. E justificam sua postura absolutamente inerte reivindicando um certo ideal de não-violência, quando na verdade só querem um argumento para não fazer porra nenhuma nessa vida. E desse modo, o ideal de não-violência acaba resumido a reclamações esporádicas sem fruto algum. Como se o ato de não reproduzir o violência, por si só, gerasse uma outra coisa que não a violência propriamente dita.. Contra a violência. Contra atos violentos. Contra propostas violentas. Mas afinal de contas, a favor do que? E, além disso, propondo o que?  Gandhi, ícone máximo do pacifismo, pregou e praticou a não-violência desse jeito?

Forçaram a barra e fizeram com que a expressão “não-violência” se igualasse em número, gênero e grau com a palavra “inútil”. É preciso separar o joio do trigo.  Ghandi e todo o ideal de PAZ que esse homem pregou, não foram, tão somente, resultado de belas palavras jogadas ao vento. Muito menos, resultado de um “não-fazer-nada” em relação à opressão Inglesa. Quem acredita nisso, é bobinho e merece dar continuidade à sua saga pacifista de gabinete. Paciência...

Mas tenho certeza, que além desses, existem os que acreditam que a paz  não é uma idéia abstrata e que é algo que precisa ser CONSQUISTADO diariamente. E que se existe algo que emperra isso, que nos levantemos contra! Assim como os Indianos fizeram, assim como Ghandi, tão sabiamente, o fez. 

Um comentário:

  1. Bem dito, pequeno gafanhoto! =)

    É uma compreensão muito superficial da filosofia oriental em geral achar que a paz e a não violencia que eles propõem é sinônimo de inação (apesar de algumas, como o zen, utilizarem essa palavra - que na verdade é uma tradução incompleta que não expressa o conceito da forma como é proposto).

    Um exemplo claro e contemporâneo: nos ultimos dois anos, no tibete, dezenas de monges (sim, daqueles que parecem o dalai lama) imolaram seu próprio corpo em protesto contra a opressão chinesa.

    ResponderExcluir